terça-feira, 12 de julho de 2016

Mãos de Ajudar




VEJA A PARTIR DO MINUTO 7:30

Hoje eu estava saindo do edifício de clínicas quando uma mulher me parou e me abordou com a voz embargada:

- Por favor moça, me ajuda, eu tô com fome.

Eu parei e olhei para ela. As roupas sujas de poeira, a boca quase sem nenhum dente, a pele castigada de sol, o corpo magro sobre a blusa de moletom, o boné, uma pequena bolsa cruzada em seu corpo, seus únicos pertences. Eu olhei diretamente para os seus olhos. Eles estavam lacrimejantes, a ponto de transbordar. Ela continuou:

-Por favor moça, eu to pedindo porque não quero roubar, eu não roubo. Eu não tenho casa, não tenho família, não tenho nada.

O tom da sua voz era de súplica. Olhei nos olhos dela e disse:

- Calma, qual o seu nome?

- Maria

Olhei para ela alguns e decidi ajudar, mas antes perguntei:

- Há quanto tempo você vive desse jeito?

- Muito tempo já.

Eu olhei em volta, tinha uma barraca de frutas, mas acreditava que a fome da mulher precisava de algo com mais sustância. Decidi que ia dar algum dinheiro para ela.

- Senta aqui Maria. - eu disse e sentamos na muretinha do jardim em frente ao edifício de clínicas. Precisava de um apoio para poder pegar a carteira de maneira mais segura.

Enquanto sentávamos a voz da Maria embargou com as lágrimas acumuladas e ela disse tentando segurar o choro:

- Eu to cansada disso. Eu peço todo dia pra não morrer de fome. Vontade de me jogar na rua prum carro passar por cima. Ninguém merece isso não.

Eu estava abrindo a bolsa parei olhei pra ela e sem saber o que fazer, coloquei a mão em seus ombros e disse:

- Fica assim não Maria... - Inútil, tosco, é óbvio que dizer isso não ia ajudar em nada, mas eu simplesmente não sabia o que dizer além disso.

- Ninguém merece isso não moça. As pessoa nem olha pra mim... eu não queria fazê isso não. Eu peço pra não ter que roubar, mas to cansada disso. Não tenho casa, não tenho família, não tenho nada.

Eu vi em seu rosto o constrangimento que fazer aquilo causava para ela. Abri minha carteira e tirei uma nota, queria que Maria pudesse comer razoavelmente bem hoje, era a única coisa que eu podia fazer. Bem no momento em que fiz isso passam duas mulheres ao nosso lado, todas bem vestidas e a mulher mais próxima diz:

- Dá dinheiro não! Tem que dar comida aí, se fosse eu não dava dinheiro não.

Eu as ignorei. Entendo o lado delas, há muitos moradores de rua que infelizmente usam drogas, e usam as esmolas que recebem para financiar seu vício, mas nem todos os moradores são drogados. O preconceito faz as pessoas terem medo e rejeitarem quem estava apenas implorando por ajuda, como Maria.

Eu já havia trocado palavras o suficiente para ver o jeito que ela falava e se portava que estava sóbria e mais que isso: cansada, triste, humilhada pela fome. Perguntei pra ela se ela sabia onde ia comprar comida ali perto. Ela disse que tinha um Giraffas com um prato de 11 reais que ela podia comer, outros lugares não deixavam ela entrar nem sentar pra comer. Eu não dei uma esmola, dei os 11 que ela precisava para comprar a comida. Estendi para ela o dinheiro de seu almoço, ela pegou dizendo "Obrigada".

Passei mais alguns minutos conversando com ela. Ela chegou a dizer mais uma vez que as pensava as vezes em se jogar no meio da pista la na rodoviária. Seu rosto já estava ensopado de lágrimas, as palavras que já saiam sem muita definição devido a falta de dentes em sua boa as vezes eram incompreensíveis por causa do choro. Falei que tudo ia dar certo, pra confiar em Deus. Levantamos e eu me ofereci para acompanhá-la e ela disse:

- Precisa não, você já ajudou muito moça, a mulher ali que eu falei antes não deixou eu nem falar... Nem quis ouvir. - ela enxugou o rosto com a manga do moletom. - Pedi só pra me ouvir e ela num quis.

Eu tentei dar um sorriso aberto, consolá-la, mas não consegui.

- Queria pode fazer mais pra te ajudar, mas eu não sei o que fazer - Desabafei.

E aí foi a Maria que me disse:

- Tudo bem. Já me ajudou moça.

A abracei e nos despedimos. Enquanto eu caminhava para o outro edifício marcar um exame e mentalizei Jesus e fiz uma prece, era a única coisa que ainda podia fazer pela Maria. Porém subindo as escadas pra ir a clinica me foi subindo uma tristeza. Quando apertei o botão das senhas eu comecei a chorar, ou melhor, comecei a tentar não chorar. Meus problemas são tão pequenos! Fiquei pensando que poderia ter dado um valor maior, eu quando como fora gasto as vezes até 20 reais, mas o dinheiro que ganho infelizmente não é mais do meu trabalho (ser estudante é tenso nessas horas) e ônibus ta caro.

Imaginei quanto tempo será que Maria havia ficado lá no estacionamento pedindo ajuda e sendo ignorada até ficar no estado de desolação na qual eu a encontrei, já implorando e quase desistindo. Mas ao mesmo tempo eu fiquei um pouco alegre porque mesmo fazendo pouco, eu fiz, e cumpri uma promessa que tinha feito a Deus. E aí ficou martelando na minha cabeça o resto da manhã uma lembrança que foi bem marcante:


Há alguns anos estava eu no ensaio do GEMIX, e estávamos montando um arranjo para a música "Dor e Confiança" do Allan Filho. Pra quem não conhece a música ela fala bem assim:

"Pés descalços mãos marcadas, moradores nas calçadas, esquecidos como a própria noite. Rosto triste olhar tão raro, na esperança de um amparo, o silêncio mostra a própria dor. Sem perceber, finjo não ver e prefiro evitar. Preciso ter olhos de ver e mãos de ajudar, e amar como Ele amou" Na última repetição da música a palavra a frase muda para "Pés descalços mãos marcadas, Jesus Cristo nas calçadas, esquecido como a própria noite" em alusão a uma passagem que se encontra no capítulo 25, versos 35-45 do evangelho de Mateus.

Na época inventamos que seria interessante adicionar um RAP no meio da canção o qual me prontifiquei a compor. Rabisquei algumas vezes e ainda guardo o caderno com as primeiras versões. No final ele ficou assim:

"Por que, Por que tanto sofrimento? Tanta gente jogada ao relento. Tentei, tentei ignorar. Fechei meus olhos e busquei me libertar, mas percebi dentro do coração que eu estava fugindo do compromisso cristão, e cansada de viver de ilusão abri o evangelho, achei a solução: "O bem que fizer aos outros é o que fazes a mim" a lição é tão clara, finalmente entendi que para mudar o mundo eu preciso olhar pra dentro de mim e buscar me melhorar sem pensar em desistir. Estender minhas mãos pra quem preciso de um amigo, dar o primeiro passo eu sei que é difícil! INDIFERENÇA é o que te impede de ver, mas tenho confiança que a esperança há de vencer!"


Sim, palavras bonitas né? Uma pena que durante muito tempo elas não passaram de palavras. No final do ano passado fui comer sushi com esses meus amigos do GEMIX, e quando descemos do carro veio um senhor que se aproximou cautelosamente nos abordando com cuidado.

- Oi boa noite, desculpa incomodar. - Ele mantinha a cabeça meio baixa visivelmente envergonhado. - Eu to precisando de dinheiro pra dar comida pra minha família. Eu morava num barraco "praquelas" bandas de lá, mas o governo foi lá e tirou tudo. Eu não queria tá pedindo não gente, mas eu to sem emprego e agora to sem casa também.

- Qual o seu nome? - Eu perguntei.

- É Francisco (nunca vou esquecer o nome dele).

Todos nós abrimos nossas carteiras e juntamos algum dinheiro pra ajudar. Na minha carteira eu tinha uma nota de 50 reais e duas moedas de 25 centavos. Na hora, no automatismo, na mania de sempre dar o "troco", a "esmola" eu dei as moedinhas...Imagina... 50 centavos ia ajudar uma família de 5 pessoas como? Na época eu ainda fazia estágio e podia muito bem pagar o lanche com cartão. Quando ele foi embora entrei no restaurante com o pessoal, mas quando olhei os valores no cardápio senti um leve mal estar, havia pratos lá que custavam 60 reais. Me bateu um arrependimento e pensei "fui muito egoísta", fui muito egoísta MESMO e pensei no meu conforto. As letras do RAP que eu mesma tinha escrito anos antes se encaixaram como uma luva nessa hora "percebi dentro do coração que eu estava fugindo do compromisso Cristão". Sabe quando cai a ficha da hipocrisia?

Em uma noite numa ida ao cinema a dois, eu gasto facilmente 50/60 reais só com os ingressos e a pipoca. Vários dos meus vestidos custaram 60 reais cada, uma base de maquiagem dependendo da marca tem esse preço, um sapato, um perfume, dois rodízios de pizza, uma compra pra semana no mercado... por qualquer besteira e prazer para mim eu gasto esse valor sem pensar nem duas vezes, mas quando é pra ajudar alguém eu dou 20 centavos!!! Quando voltei pra casa no carro naquele dia eu pensei no Francisco, e o quanto eu pregava tantas coisas lindas e fazia tão pouco, tão pouco... E o pior, aquele dinheiro não ia me fazer falta. Não ia, eu não ia passar fome, não ia ficar sem voltar pra casa, não ia deixar de pagar as contas, ele era um supérfluo. E foi aí que eu prometi naquele dia pra mim mesma que se eu visse alguém que sinceramente precisasse de ajuda eu ia dar aquilo que eu pudesse que estivesse em minhas mãos, não aquele 1,50 de moedinhas só pra desencargo de consciência. Foi por isso que dei pra Maria o valor de um almoço, conversei com ela, abracei e resolvi voltar a pé para casa pra economizar o ônibus.

Eu não estou querendo me vangloriar, nem dizer "Vejam como sou uma pessoa boa" porque sinceramente eu não fiz nada mais do que a minha obrigação, isso deveria ser a norma e não a exceção. Não tenho orgulho de estar fazendo isso, tenho vergonha é de ter demorado tanto para começar a fazer! E fazer tão pouco ainda por cima!

Minha família, nossa família é o mundo, cada pessoinha desse planetinha azul. Hora de tomar vergonha na cara e parar de ser hipócrita. O Francisco, a Maria, o Alessandro (essa é outra história que eu conto se alguém quiser ouvir), os ex-moradores de ruas que vendem a Traços por aí, o pessoal que arrecada fundos para instituições de reabilitação aos drogados nos ônibus, etc, são meus irmãos criados pelo mesmo Deus que criou a você e a mim e se eu acredito nisso a minha ÚNICA obrigação é ser grata a Deus realizando o verdadeiro louvor a ele, cumprindo meu propósito na Terra.

Sabe o meu maior medo? Até pouco tempo atrás o meu medo era a solidão... Mas eu NUNCA to sozinha. Hoje eu percebo que meu maior medo é esquecer de Deus, ser engolida pelas preocupações da Terra e deixar de me tornar a diferença que quero ser no mundo.

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